26 de mai. de 2007

Cultura de massa e cultura de rede

Por Daniela Silva

Nossos rostos não aparecem nas capas de revista. Não nos reconhecemos no sotaque dos locutores de rádio, nem na lourice meiga dos atores de tevê. A música que consumimos pouco tem a ver com aquela que fazemos. Nunca fomos parecidos com as ilustrações das cartilhas da escola. Nossa língua não freqüenta os livros, os palcos, os plenários. Somos constantemente treinados a acreditar que o conhecimento efetivo é aquele que se distancia da sabedoria popular.

Isso porque é difícil combinar diversidade com cultura de massa. Para priorizar a opinião - e o lucro - de poucos, é preciso estabelecer com os outros muitos um status de dominação. A cultura, quando distribuída em ritmo industrial, vira uma versão empobrecida da realidade, dissemina estereótipos e carrega as relações sociais de estagnação e desigualdade.

Mas se a cultura de massa é aquela que tem pouco ou nada a ver conosco, a cultura da rede somos nós. A rede nos oferece um potencial inédito de propagar pensamento livre e criatividade. A comunicação passa a se dar de maneira essencialmente horizontal e o conhecimento se constrói colaborativamente. A diversidade cultural deixa de ser uma entidade exterior às pessoas e se torna, finalmente, um produto da expressão coletiva.

Para que esse potencial se concretize, é preciso transformar a rede em um espaço de todos. Para que a rede reflita a diversidade, é preciso promover o acesso, a liberdade, o respeito às diferenças. E resgatar a idéia de que as pessoas, todas elas, têm o que dizer.

25 de mai. de 2007

Não queremos internet nas escolas!

Por Nelson Pretto

Calma. A frase do título é apenas a metade de uma idéia um pouco maior. De fato, não queremos a internet nas escolas, mas sim, as escolas na internet. Percebe a diferença? Essa nossa frase virou o lema do nosso grupo de pesquisa Educação, Comunicação e Tecnologias (http://www.gec.faced.ufba.br) desde o final do século passado. Parece que em tempo de web 2.0 não custa resgatá-la. E o incrível é que, a web tem pouco mais de 15 anos e, desde o começo já diziamos: tem que ter espaço para que todos possam se colocar na rede. Tem que cair na rede. A diversidade de culturas, povos, jeitos de ser, pensar e agir precisam estar representadas e se constituirem a essência da internet. Sempre acreditamos que a relação da educação com a cultura, com a ciência e a tecnologia são fundamentais mas ainda estamos frente a poucas transformações no próprio sistema educacional. Mas, felizmente, tem muita coisa acontecendo na busca de transformação dessa realidade, e muitas delas estão sendo implantadas e conduzidas por professores e professoras atuantes e animados, lutando contra todas as faltas de condições e apoios conhecidos. Para nós, para viabilizar essas ações precisamos intensificar a apropriação das TIC enquanto elementos de cultura e não apenas como aparatos tecnológicos que ilustram ou facilitam os processos educacionais. Esses equipamentos, e todos os sistemas a eles associados, são constituidores de culturas e, exatamente por isso, demandam olharmos a educação numa perspectiva plural, que demanda novos vetores de desenvolvimento. Ou seja, temos que afastar a idéia de que educação, cultura, ciência e tecnologia podem ser pensados enquanto mecanismos de transmissão de informações. Isso implica, portanto, pensar em um processo de articulação entre todas essas áreas. No campo das tecnologias, uma ação que se tem mostrado de grande importância é uma maior aproximação com os movimentos do software livre e das possibilidades trazidas pelas tecnologias livres, ao resgatar, para o ambiente da escola, a perspectiva de colaboração. Associado a isso, os movimentos de democratização das produções, através das chamadas licenças criativas (creative commons), intensificam uma idéia que nos é muito cara: a possibilidade de uma intensa criação. Esses são movimentos que buscam fazer circular as informações, de se produzir e re-produzir permanentemente, remixando tudo, re-criando em cima do já criado. Acredito, a partir desses elementos, podemos também pensar também nos processos denominados de inclusão digital, afastando-se, assim, da perspectiva limitada do chamado treinamento para o mercado de trabalho. Temos defendido uma outra perspectiva de inclusão, que supere a dramática dicotomia: para o filho do rico, todas as condições, em um quarto conectado, com computadores de alto processamento, conectados em banda larga, suporte 0800 e, o mais importante, a liberdade quase total para se fazer o que desejar; para o filho do pobre, acesso através dos telecentros ou infocentros, com aulas de informática para o ensinamento de planilhas, processadores de texto ou coisas do tipo, geralmente de forma muito intediante e com softwares proprietários. Gastamos muito dinheiro com isso e pouco se modifica nessa realidade, uma vez que essas políticas de inclusão terminam sendo impregnadas por uma exagerada pedagogização dos processos, fazendo com que as distâncias entre aqueles que tem acesso e os que não tem, aumentem cada vez mais, reforçando a estratificação já existente em nossa sociedade.
Outro aspecto associado à educação que merece ser destacado é a alfabetização. Penso que não devemos pensá-la de forma isolada e muito menos apenas na idéia da alfabetização digital, se é que conseguimos entender o que isso significa. Creio ser imperativo, aqui também, pensar em alfabetizações, com a perspectiva plural de novo presente, fortalecendo-se, com isso, todo o sistema educacional, formal e não-formal. O que propugnamos é que professores e alunos deixem de ser meros atores do processo educacional e passem a ser considerados - cada um individualmente e enquanto grupos - autores do processo. Para tal, o que estamos pensando em nosso grupo de pesquisa [www.gec.faced.ufba.br] é que precisamos superar a idéia de montagem de portais de serviços que distribuem informação, produzidas por especialistas e de forma centralizada, para consumidores localizados nas escolas. Pensamos que se torna necessário constituir comunidades virtuais de aprendizagem, articulando toda a rede, com escolas, professores, alunos e comunidade atuando de forma intensa e permanente visando a incorporação de todas as manifestações de cada uma das regiões e, promovendo o diálogo dessas manifestações com as oriundas de outras regiões, da alta cultura e da ciência, mas sempre em processos horizontalizados. Estamos construindo essas reflexões, sempre inspirados no nosso querido professor Felippe Serpa [http://www.faced.ufba.br/rascunho_digital/] , que propunha-nos pensar em pedagogias da diferença em oposição às tradicionais pedagogias da assimilação. Pedagogias que tenham o diferente como fundante, não nos colocando como referência a identidade, mas ao próprio diferente. Busca-se, com isso, o enaltecimento da diferença, sendo ela produtora de alteridades, como nos propôs em conversa pessoal o professor Wladimir Garcia da Faculdade de Educação da Universidade Federal de Santa Catarina. As expressões que passam a fazer parte do vocabulário dos educadores, assim, são fluxo, rede e movimento, em lugar das já conhecidas linearidade, currículo fechado, currículo distribuído, treinamento, entre tantas outras. A montagem de um sistema fortalecido como esse, significa fortalecer o sistema como um todo, através das redes colaborativas, centradas na generosidade, na cooperação e no trabalho colaborativo.
Acredito que investir fortemente na formação de professores, nas condições de trabalho e salário, são condições básicas para a mudança que se espera do sistema. O professor tem que ser valorizado enquanto elemento que possa articular essas diversas instâncias na produção do conhecimento e as diferenças trazidas pelos seus alunos. Assim, e somente assim, com o professor retomando o seu papel de liderança científica, cultural, ética, a escola pode assumir a condição de se constituir num efetivo espaço coletivo de culturas e conhecimentos, oferecendo aos filhos dos pobres aquilo que os filhos dos ricos têm em casa, como já foi dito pelo educador baiano Anísio Teixeira, na década de 50 do século passado. Este é, seguramente, um dos desafios fenomenais que temos pela frente, e aqui, todo cuidado é pouco pois os resultados não são imediatos. Mas esses, podem ser importantes passos para a construção de um planeta solidário e sustentável.

24 de mai. de 2007

Práticas de leitura e democratização do conhecimento

Por Lídia Eugenia Cavalcante

Creio que uma das múltiplas possibilidades de se discutir diversidade é a partir de nossas próprias experiências pessoais e coletivas. Nesse sentido, sinto-me privilegiada. Olho a diversidade e vivo a diversidade intensamente como mulher, mãe, educadora, bibliotecária, pesquisadora, funcionária pública, brasileira, cidadã... ufa! Dá até uma certa “canseira”... A contemporaneidade nos trouxe essa faceta de assumirmos vários papéis, ao mesmo tempo, na sociedade. Isto certamente tem ocorrido com uma boa parte das mulheres brasileiras, que assumem muitos papéis cotidianamente, por obrigação ou prazer. Como podemos viver tão intensamente a diversidade feminina...

Por outro lado, o excesso de categorias de análise, metodologicamente, nos leva a uma mistura de variáveis que, muitas vezes, nos faz perder o foco e dificulta a construção de um efetivo posicionamento. Podemos correr o risco de nos “enroscar como gatos em novelos de lã” e fica difícil encontrar o “fio da meada”. Assim, para esse momento, vou me concentrar em participar do debate no âmbito das minhas experiências profissionais. Isto é, no papel de educadora, bibliotecária e pesquisadora.

Numa tentativa de não perder o “fio da meada” da relação entre diversidade e cultura digital, faremos uma reflexão do ponto de vista das práticas de leitura e democratização do conhecimento no universo digital.

O surgimento dos suportes virtuais com seus hipertextos, considerados como “novos” suportes do registro do conhecimento, também apresentam novidades com relação às práticas de leitura, sejam elas físicas ou sociais. Mudam a forma de acesso, conteúdo, veracidade, paginação, visualização, estímulo, processo de interação e transmissão, mediação, pertinência, descobertas e concepção. Nasce daí uma certa ruptura com as formas tradicionais do livro impresso. O leitor segue percursos interativos de leitura, acessa meta-texto, imagens e sons por meio de links, que o convida para muitas viagens interativas. É também continuamente convidado a se tornar “autor” a cada vez que ele relaciona elementos de informação. Não se trata de uma ruptura definitiva entre impresso e digital, já que o texto impresso também permite leituras não lineares, intertextualidade e interatividade, que constroem o vasto conjunto de informações adquiridas pelo leitor. Entre impresso e digital ocorre, na realidade, um forte processo de multiplicação de possibilidades de leituras.

As áreas do conhecimento, de um modo geral, têm transitado por uma forte evolução cientifica, tecnológica e multicultural, que implica algo além do saber acadêmico ou livresco, para o uso do “aprendizado ao longo da vida”, criando uma relação entre informação, educação, conhecimento cientifico e diversidade.

Foi justamente no universo contemporâneo que o mundo se abriu para a emergência de um pensamento complexo, de saberes tão bem apresentados por Edgar Morin, ao descrever a diversidade e a complexidade humanas. No curso das últimas décadas do século passado, observamos radical transformação na socialização histórica e política com relação ao conhecimento e à informação, sobretudo no que se relaciona com o advento de uma sociedade pautada nas inovações culturais, científicas e tecnológicas. O campo informacional, por exemplo, se manifesta para abrigar discussões opostas no centro destas reflexões: como pensar a informação em um contexto de diversidade e complexidade, especialmente se considerarmos a ambiência de espaços geográficos e socialmente interativos?

A sociedade da informação não requer dos indivíduos apenas o acesso à tecnologia para crescer no mundo do trabalho. Com ela aumenta consideravelmente a diversidade cultural e os processos de interação/integração entre os sujeitos, gerando um desafio que é a promoção de vias de desenvolvimento a partir da adoção de formas de pensamento, que se voltam para processos de partilha e troca.

O desenvolvimento econômico e em ciência e tecnologia deve vir acompanhado do contexto cultural e social. Neste sentido, a educação possui papel primordial para unir competências individuais e coletivas por meio de uma linguagem interdisciplinar que, em uma pesquisa, considerará o objeto estudado sob diferentes aspectos, especialidades e teorias. Um exemplo claro para esta afirmação pode ser observado no próprio campo das dimensões epistemológicas que regem os estudos em torno da área tecnológica. Esse fenômeno tem sido observado por especialistas das ciências da informação, historiadores, antropólogos, sociólogos, filósofos e físicos, apenas para citar alguns, com abordagens enriquecidas pelas competências de cada área, levando à riqueza do conhecimento. É como se observássemos um objeto sob diferentes perspectivas e ângulos distintos.

O "cu" da mídia mostra que ela não sabe para quem fala

Por Raphael Prado

Se você chegou até esse espaço de discussão da Diversidade Digital, creio que seja uma pessoa ligada na internet e que, portanto, me poupa da explicação sobre a música e o vídeo "Vai tomar no cu" ( http://www.youtube.com/watch?v=dHpSCHxb780). Um fenômeno repassado no "boca-a-boca" da internet e clicado na casa dos milhares, no YouTube.
Qualidade do humor à parte, o fato é que a mídia não pôde ignorar o vídeo quando a abrangência, na web, fez lembrar a luta do Digg.com contra a publicação do código que quebra a criptografia do HD-DVD. Da Mônica Bergamo e Fernando Rodrigues (sim, o colunista político), na Folha de S.Paulo, a Zeca Camargo, em seu blog no G1, passando pelos portais Terra e UOL, todos deram a notícia. Alguns conversaram com a atriz.
Mas o curioso está em como grafaram a palavra repetida diversas vezes na música. Para o grupo Folha/UOL, trata-se de "c...", padrão também seguido pelo Terra. Diziam, portanto, que o vídeo era "Vai tomar no c...". Zeca Camargo, mais "antenado", desde os tempos de VJ da MTV, não teve medo. Ainda postou o vídeo e viu seus comentários quase triplicarem. Mas a chamada na capa do G1 (que durou muito tempo, aliás; o que sinaliza "boa audiência"), com a impressão de que o espaço era insuficiente para mais, foi "Vai tomar..."
Se o vídeo é mesmo um fenômeno midiático – da nova mídia, claro -, se está nas caixas de e-mail de todos que têm uma caixa de e-mail, se já foi visto pelas crianças de 7 anos que não lêem o jornal – e, portanto, não se preocupam se ele grafa "c..." ou "cu" -, qual a explicação para essa auto-censura? Para quê noticiar algo que, mesmo sem o link, pode ser encontrado em 0,14 segundos no Google (dei-me ao trabalho de fazer o teste), se o pudor da mídia vanguardista não permite expressar o que ele, o vídeo, expressa?
Foi-se o tempo, felizmente, dos leitores de jornal que usavam cartolas, passeavam pelo Anhangabaú em São Paulo, seguravam nas mãos das damas – com luvas - para apoiá-las na descida do bonde e que não podiam mostrar um jornal que tinha impresso a palavra "cu". Felizmente. E não pelo charme da época, mas pela mudança dos tempos. Foi-se.

23 de mai. de 2007

A mensagem, a garrafa e seus donos

Por Tiago Soares

Um dia, à beira do oceano, alguém jogou ao mar uma mensagem na garrafa.

Esse alguém não estava só.

Adolescentes românticas, maníacos por filmes de terror, economistas amadores e de ofício, escribas profissionais, gente de todos os feitios e tamanhos -- eram muitos os que andavam jogando garrafas ao mar naqueles tempos.

Algumas garrafas nunca chegavam a ter seu conteúdo lido por quem quer que fosse. Outras caíam em mãos interessadas, inspiravam as massas, pautavam telejornais. Alguns, ofendidos ou críticos ao conteúdo de certas garrafas, lançavam ao mar também as suas, na esperança de que suas idéias fossem lidas por gente com os mesmos pontos de vista.

Num certo momento, eram tantas, tantas as garrafas que os destinatários antes acidentais podiam escolher as que mais lhes interessassem. Chegavam mesmo a construir comunidades ao redor de idéias desengarrafadas.

Até que os fabricantes de garrafas tiveram uma sacada. E começaram a fazer exigências para os que quisessem enfiar idéias dentro de seus recipientes e lançá-los ao mar. Alguns pediam certos direitos sobre o que suas garrafas carregassem no oceano. Outros demandavam que as mensagens fossem escritas apenas num papel timbrado disponibilizado por anunciantes.

Houve até quem passasse a cobrar taxas para o usufruto marítimo de vasilhames.

Depois disso, a coisa toda ficou um pouco confusa.

Bom, a analogia pode não ser exatamente perfeita, mas ferramentas de publicação como blogs, wikis, listas de discussão, são, cada qual à sua maneira, como as garrafas para as idéias dos seres do ciberespaço. Vasilhames feitos de camadas de códigos, servidores, banda. Lançadas ao mar da WWW, navegando correntes de hiperlinks.

É fato que essas novas interfaces tecnológicas trouxeram poder de expressão inédito ao público. Nunca foram tantos os grupos e idéias a circularem no debate global. Nunca a máquina de consenso da grande mídia corporativa esteve tão fragilizada frente ao contraditório, tão exposta à desmistificação de seus mecanismos.

Softwares de publicação online cada vez mais poderosos são disponibilizados a custo baixo ou zero. Grupos que partilham dos mesmos interesses organizam-se em comunidades no ciberespaço, potencializando a difusão e o alcance de novos conteúdos alternativos.

Não é exagero dizer que tendemos para um cenário no qual, à vista do usuário, nivelam-se a credibilidade e alcance do(s) blog(s) independente(s) e do grande portal de mídia (afinal, o trabalho para se acessar tanto um site quanto o outro é, via de regra, o mesmo).

Esse novo universo, indubitavelmente promissor para a multiplicação de culturas e idéias, não é, porém, totalmente livre. Um exemplo: enquanto a Wikipédia disponibiliza seu conteúdo colaborativo por uma licença livre (Gnu Free Documentation Licence - GFDL), o popular portal de relacionamentos MySpace.com já enfrentou manifestações de usuários que afirmam ter tido seu trabalho censurado pelos administradores do site.

Vale lembrar que o MySpace.com foi comprado em julho de 2005 pela News Corp, a gigante de mídia que comanda a Fox. E que a censura que os responsáveis pelo site teriam promovido sobre o conteúdo de usuários seria causada por motivos comerciais – todas mensagens deletadas citariam informações de sítios rivais.

Ao mesmo tempo em que disponibilizam ferramentas para uma expansão imediata de culturas e idéias no ciberespaço, conglomerados como a News Corp, donas dos servidores e dos softwares através do quais se expressam milhões de pessoas, pairam com a espada de Dâmocles sobre a cabeça de seus usuários.

O futuro dessa eminência de grandes grupos econômicos sobre estruturas de comunicação baseadas na web é ainda incerto. Mas não seria desvario pensar em hipóteses como censura, apropriação de trabalho intelectual, ou exigência de contrapartida financeira para a continuidade de serviços hoje gratuitos, entre outras coisas.

Até onde pode ir o poder das corporações de mídia e internet sobre o conteúdo gerado por seus usuários? Como resistir?

Questão delicada, essa.

Mas algo ou alguém há de zelar pelo direito de todos jogarem suas garrafas ao mar. E a resposta pode bem estar nas adoção e no uso de tecnologias livres e abertas.

22 de mai. de 2007

A linguagem vem do artista

Por Sylvio Rocha


Como a câmera de película, como um pincel, como o violino, o digital é uma ferramenta. Uma ferramenta nova e cheia de possibilidades. O artista escolhe a ferramenta que melhor convier para se expressar. A linguagem não vem da ferramenta, ela vem do artista.
Quando George Eastman lançou a kodak, a primeira câmera fotográfica portátil em 1888, fez todo americano virar um fotógrafo em potencial. “Você aperta o botão e nós fazemos o resto” dizia o slogan. Com isso, levou a fotografia para dentro dos lares e da vida das pessoas. Ele popularizou a fotografia tornando-a acessível. O trabalho laborioso e científico do fazer fotográfico ganhara uma outra dimensão, foi a massificação de uma ferramenta.
As câmeras digitais fotográficas de hoje fazem tudo. Gravam som, imagem, fotografam e até falam. Elas acompanham a vida em toda a sua extensão.
Nas idas ao dentista e até na intimidade com a namorada ela está lá, presente e disparando.
Para os Gregos, a visão era considerada o maior dos sentidos. Hoje em dia, a linguagem visual é muito forte: no mundo de fast food, de altos níveis de poluição e da velocidade exacerbada, seguramente o sentido que mais utilizamos é o da visão, o nosso fraco órgão sensitivo. Vivemos na era da imagem.
Com o digital, o fazer ficou mais fácil e seguramente, com o passar do tempo ficará cada vez mais. A cultura digital aproximou-nos de ferramentas de criação fantásticas, que ampliam nossa capacidade de produção, facilitam o trabalho e possibilitam uma pluralidade de obras.
As câmeras estão aí sendo colocadas à prova para todos que quiserem se aventurar no mundo do vídeo. Existem trabalhos excelentes sendo realizados nesse suporte e festivais que estimulam as criações. A possibilidade de uma pessoa anônima, num quarto pequeno com uma câmera e um computador realizar um filme é incrível. A escrita do áudio-visual será a linguagem das novas gerações.
O mundo do digital acabou com o problema da distribuição e da exibição das artes reprodutíveis. O artista anônimo consegue divulgar seu trabalho pelo mundo; sua obra pode ser visitada, comentada e se ele permitir, até modificada por outras pessoas. O diálogo voltou.
Claro que Eastman não conseguiu fazer com que todos fôssemos transformados em artistas. Todos já passamos tardes chatíssimas na casa de um amigo ou de uma tia, ao lado de um projetor de slides vendo fotos feias e sem interesse algum, de um lugar que seria melhor conhecer pessoalmente do que ver projetado numa parede branca. Devemos essa chatice a ele. Mas seguramente a muitos ele encorajou e estimulou indiretamente. A socialização da ferramenta possibilitou a descoberta de suas capacidades, de seus limites e de seus artistas.
A pluralização das obras é válida, resta-nos saber o quê degustar desse vasto universo digital. Como tudo na vida.

21 de mai. de 2007

Diversidade: tolerância, respeito e valorização

Por Edgard Piccino

Quando falamos em diversidade muito se fala sobre tolerância. Seria este o melhor foco para a discussão?
É inegável que a tolerância já é um passo em relação à intolerância, pois ao menos concede o direito de existência ao outro. O respeito à diversidade já parece ser um outro passo adiante, pois significa não somente tolerar, mas respeitar, garantir o direito à alteridade. Em tempos de globalização o respeito à diversidade é uma forma de afirmar a identidade de grupos frente a massificação imposta pelo mercado, frente a padronização dos comportamentos através do consumo.
Mas as grandes empresas já utilizam este motivo nas suas campanhas de marketing, vide a atual campanha da Coca-Cola, que por linhas tortas sugere: "seja diferente, mas consuma Coca-Cola". Sugere que a diversidade é uma realidade da nossa sociedade, e que o consumo do seu produto unifica a humanidade, aplainando as diferenças. Nesta linha o consumo unificaria a humanidade em um ambiente de respeito à diversidade.
Mas a valorização da diversidade não seria ainda um passo mais adiante? Valorizar a diversidade é reconhecer a alteridade de maneira mais plena, mais ampla, pois além de garantir o direito à existência do outro, seria ver a si mesmo no outro, com todas as diferenças e contradições. Seria
praticar a contra-hegemonia cotidianamente, valorizar as vozes dissonantes, que contestam o consumo, o mercado global e o pensamento único.
Valorizar a diversidade é afirmar a identidade destoante, afirmar a autonomia, e ao mesmo tempo propor alternativas à massificação, à pasteurização e à antissepsia cultural. Mas esta prática não é simples, não é trivial, muito menos automática. Para pensar sobre esta não-trivialidade, podemos evocar a seguinte situação: os grupos que optam por negar as outras formas de cultura também não deveriam ser valorizados? Não seria esta uma forma, mesmo que búdica, de valorizar a diversidade? Não deveríamos então tolerar, respeitar e valorizar o
intolerante?

*Fetiche da diversidade: o culto ao exótico.*

Em um futuro não muito distante, em um país imaginário, poderíamos imaginar a seguinte cena: um helicóptero sobrevoando tribos e comunidades isoladas, com um guia turístico informando os visitantes sobre as peculiaridades culturais de cada tribo, sobre os costumes, etnias e línguas, e dando avisos do tipo "por favor, não joguem objetos, alimentos ou roupas, para não influenciarmos perniciosamente seus hábitos e costumes..."
A valorização da diversidade não pode se transformar em fetiche, em culto ao exotismo, em "isolamento cultural" para evitar a contaminação. A diversidade só tem sentido na troca, no compartilhamento cultural, e não na "preservação" da diferença como peça de museu, ou pior, como vitrine para consumo turístico e cultural.

Incorporar a diversidade é contaminar e ser contaminado pelas outras culturas, outras cosmogonias, outras ideologias, outras religiões, outros costumes. O hábito da mestiçagem, da troca, do contrabando cultural está na raiz da diversidade. Só há sentido diversidade trocadora, mestiça, impura, contaminada e contaminante. Ou será que existe sentido na diversidade "pura", intocada, sem mistura, pois esta seria a garantia da "matriz cultural", da "cultura de raiz"? Isso não seria o fetiche da diversidade, o culto do exótico?

O capitalismo tem a imensa habilidade de transformar tudo em consumo, inclusive o distante, o diferente, o exótico, o intocado. Queremos promover qual diversidade? A diversidade para o consumo do exótico, ou a diversidade para o compartilhamento, para a troca?

Do lixão ao Ciberespaço - Queremos mais responsabilidades para nós?

Por Leo Germani

Existe um grande mal entendido nos recorrentes discursos sobre descentralização atualmente. Existe também uma idéia errada da noção de liberdade atribuída aos movimentos de “cultura livre” e “software livre”. As novas tecnologias, a “libertação” do conhecimento e a descentralização dos processos não trazem praticidade, agilidade, conforto, segurança, felicidade, harmonia e bem-estar para nosso dia a dia. Ao contrário, o que fazem é apenas nos dar mais responsabilidades e, por que não dizer, trabalho.
Tomemos o exemplo do nosso lixo. Uma das coisas que nossa sociedade mais produz, acredito que a frente de armamentos e seriados de TV, é lixo. Todos nós, moradores de cidades, jogamos restos de comida, embalagens e papel higiênico diariamente em sacos plásticos que são recolhidos pelo serviço de coleta municipal. Todo esse lixo é centralizado em um grande
aterro e varrido para baixo de um imenso tapete radioativo.
De uns tempos para cá a reciclagem se tornou cada vez mais urgente. Entraram na moda os três eRRes (Reduzir, Reutilizar e Reciclar), e cada vez mais pessoas vão tomando consciência da necessidade dessa atitude. Em alguns lugares a prefeitura implantou sistemas de coleta de lixo
reciclável. A reciclagem se tornou também fonte de renda para coperativas que se formaram para trabalhar com coleta e reciclagem de lixo. Olha que beleza: “A reciclagem além de proteger o meio ambiente ainda gera empregos…” Muita gente que pensa assim provavelmente não
recicla seu próprio lixo. Por quê? Porque dá trabalho.
O movimento de descentralização na coleta e tratamento do lixo - também conhecido como reciclagem - requer um pré-trabalho descentralizado que a maioria das pessoas não faz: é preciso lavar aquele pote engordurado de margarina que acabou, aquele saquinho com restos de sangue de bife, a caixa de leite, etc… É preciso se informar sobre que tipos de materiais
são realmente recicláveis ou não e, mais do que isso, é preciso evitar o consumo de materiais não recicláveis: pedir pro cara da padaria não colocar o queijo naquele isoporzinho, levar a própria sacola para o supermercado e dar preferência de compra para produtos sem muitas embalagens ou com embalagens recicláveis.
Todas essas ações não trazem a ninguém mais praticidade e conforto, mas trazem mais responsabilidades. A responsabilidade pelo lixo que você gera é seu agora, não é mais da empresa, da prefeitura ou do Bush, que leva a culpa de tudo. Claro que tudo isso tem o intuito de construir uma sociedade melhor que pode garantir para seus filhos mais conforto e praticidade, mas, pelo menos por agora, isso só lhe traz mais dor de cabeça.

*No ciberespaço*

Vamos dar um pulo dos lixões ao ciberespaço. A natureza desse espaço “virtual” é ser descentralizado. Nele, qualquer pessoa pode publicar informações e a linha que separa “emissores” e “audiência” se torna cada vez mais borrada e confusa.
Com todo mundo produzindo e publicando, a internet se torna um espaço caótico cheio de tantas coisas que pode até ficar difícil de você achar o que quer. Isso dá calafrios e tira o sono dos mais tradicionais: como achar o que eu quero? Como posso confiar nas informações que eu acho? É
tanta coisa que mais atrapalha do que ajuda… Essa internet é cheia de lixo. Lixo, de novo. E isso é verdade, se levarmos em consideração que o que é lixo para uns, é ouro para outros, já que estamos falando agora de cultura e conhecimento, e não de papel higiênico.
A solução para a classificação e busca de conteúdo na internet mais interessante que surgiu foi a taxonomia emergente, ou folksonomy, comumente conhecida das pessoas pelas “tags”. Nesse modelo de classificação descentralizada, todo mundo classifica todo e qualquer conteúdo que quiser. Um texto será conhecido (e encontrado) por ser relacionado a “manutenção de motocicletas” a medida em que muitas pessoas o classificarem dessa maneira.
De novo voltamos a responsabilidade descentralizada. O ideal desse modelo de classificação é chegarmos a ter as informações todas classificadas de uma maneira muito mais inteligente, dinâmica e intuitiva, mas, para isso, é preciso que todos se responsabilizem em classificar as coisas que vêem por aí. E isso dá trabalho.
Tomemos como exemplo o site Del.icio.us, que agrega os sites “favoritos” de muita gente. Usando a ferramenta desse site, qualquer pessoa pode sair classificando as páginas que encontra por aí e que acha interessante. Assim, quando for fazer uma busca por “manutenção de motocicletas”, ao invés de buscar no google, que trará resultados baseados em contas matemáticas de um robô, pesquisará nos “Favoritos” de muita gente e encontrará o que pessoas viram, leram, gostaram e classificaram como tendo a ver com “manutenção de motocicletas”.
Mas isso dá trabalho, e algumas buscas nesse site acabam mostrando que quem o usa são apenas os aficcionados por tecnologia, e que iniciativas descentralizadas desse tipo estão muito longe de ter proporções significativas. O mesmo acontece com a wikipedia, com poucos contribuidores em comparação ao número de leitores. Já o YouTube, onde os usuários não têm responsabilidade nenhuma, tem grande participação.
E por onde seguir? Qual internet será que queremos? Um espaço onde a interação se resuma a fazer compras sem sair de casa e ter uma rádio personalizada com o seu nome, onde consumo serviços (geralmente gratuitos) ou um espaço realmente construído colaborativamente? Queremos dividir tarefas, construir e manter a pracinha da nossa rua ou preferimos fazer uma vaquinha e contratar uma empresa que cuide disso, e ponha grama sintética, que dá menos manutenção? Assim não preciso me dar ao trabalho de ter que me relacinoar com um monte de gente diferente de mim (colaborar), e, se bobear, ainda sai mais barato.
Se liguem, não queremos ir pelo caminho mais fácil. E nem é o caminho natural. É preciso romper. É preciso trabalhar.
(Publicado originalmente no blog Pirex http://www.pirex.com.br)